Os alunos de Biologia e Geologia do 11.º ano, turmas C e D, leem e comentam o poema de Vitorino Nemésio, “ADN” onde o poeta aplica conceitos das ciências biológicas, sobre a natureza e expressão do material genético dos seres vivos.
ADN
Afinal sou assim, infeliz e volúvel,
Porque minha alma guarda uma ordem diversa
De pulsões celulares ao longo do seu eixo:
Decifre-me quem saiba, que, dispersa,
Com nome A.D.N. aqui na cruz a deixo.
Nervo a pavor, fonte renal de rijo,
Cor dos meus olhos, estatura, gosto,
Quanto me importo, ó Deus, quanto me aflijo,
Tudo A.D.N. inscreve no meu rosto.
O eu lírico sente-se infeliz e instável, culpando por este facto uma diferença na sua informação genética (“uma ordem diversa”) armazenada no seu ADN e que se expressa ao ser transcrita e traduzida no sentido 5’ para 3’ (“de pulsões celulares ao longo do seu eixo”). Assim, o sujeito poético pede que lhe decifrem o ADN que lhe causa dor (“ADN aqui na cruz a deixo”). Desta forma, admite que o código genético é a chave para se entender a si próprio.
De seguida, enuncia as características físicas (“nervo a favor, fonte renal de rijo| cor dos meus olhos, estatura”) e psicológicas (“gosto”, “quanto me importo” e “quanto me aflijo”) as quais atribui ao seu ADN (“tudo ADN inscreve no meu rosto”) e considera que tanto as suas características físicas como as suas emoções se revelam no seu rosto.
Deste modo, o sujeito poético considera o ADN o principal fator para o sofrimento do seu corpo e alma. Ao atribuir a causa da sua identidade à sua informação genética, resigna-se a um determinismo biológico, acreditando que tudo está determinado pelo seu ADN e fora do seu controlo.
Bruno Sol Couto, Diogo Rangel, Isabel Martinez, Tiago Santos
Vitorino Nemésio, em “ADN” mostra que o que somos se define no interior das nossas células, pois é o material genético que herdamos dos nossos progenitores que define as nossas características físicas, mas também os nossos sentimentos e a forma como pensamos. Quando o sujeito poético refere que é infeliz e instável e que a sua alma segue outra ordem, ele assume que até o que parece mais íntimo emocional tem raízes profundas nas variações do património genético. Sugere, também, que o ADN escreve o que nós somos, deixando marcas nos nossos rostos e nas nossas vidas.
Desta forma, o poema humaniza a ciência mostrando que o DNA não é apenas uma dupla cadeia de nucleotídeos, ele é o que nos torna únicos e que determina a nossa biografia.
Filipe Oliveira, Gonçalo Oliveira, Filipe Queirós, Vicente Resende
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